Futebol e o custo social do vício

copa do mundo bets clubes

Futebol e o custo social do vício

  • Recursos que deveriam financiar economia local, saúde e alimentação são drenados para apostas online
  • Critérios ESG somem quando clubes lucram com o vício e o empobrecimento de suas comunidades

O registro histórico do Mapa da Inadimplência do Serasa, que aponta 83,3 milhões de brasileiros endividados em 2026, expõe a radiografia de um país sufocado. Esse contingente de cidadãos com CPF negativado não é fruto do acaso ou de mera distorção sazonal. É o resultado macroeconômico de um modelo que estimula o consumo por impulso e de forma desenfreada, sustentado por um mercado de crédito desordenado e com juros extorsivos.

No topo dessa engrenagem de vulnerabilidade, a maior paixão nacional foi convertida em uma poderosa isca de endividamento: o futebol transformou-se no maior vetor do vício em apostas online, as bets.

Às vésperas de mais uma Copa do Mundo, o momento impõe uma reflexão profunda sobre o papel social do futebol. Historicamente visto como poderoso instrumento de inclusão, ascensão social e identidade cultural, o esporte hoje corre o risco de entrar em campo como cúmplice de uma epidemia financeira.

Seduzidos pela engrenagem do patrocínio fácil e milionário, clubes brasileiros abriram as portas para as plataformas de apostas sem qualquer compromisso com a rastreabilidade dos critérios ESG.

As bets hoje estampam camisas, batizam torneios e dominam a publicidade através de jogadores que, embora devessem servir como exemplos de ética, fair play e responsabilidade social, transformaram-se em garotos-propaganda e agentes diretos que impulsionam o vício, convertendo torcedores apaixonados em apostadores compulsivos.

Esse fenômeno conecta-se diretamente à lógica que rege o desenvolvimento econômico do país. O modelo brasileiro viciou-se em medir a saúde do seu PIB por meio do consumo das famílias, independentemente de como esse consumo é financiado.

Diante de salários estagnados, a roda da economia passou a girar à base da antecipação artificial de renda, onde o crédito predatório e o consumo por impulso digital são celebrados como crescimento.

O ingresso das bets nesse ecossistema deu o golpe de misericórdia: recursos que deveriam financiar o comércio local, a saúde e a alimentação são drenados para os novos donos do jogo.

É nesse ponto que a realidade esbarra na urgência de uma governança real e na necessidade de uma regulação melhor. Vivemos a era dos critérios ESG (ambiental, social e de governança), mas o futebol-empresa parece entender a governança apenas como eficiência financeira interna.

A verdadeira governança dos clubes precisa se estender para fora de campo, assumindo responsabilidade ética sobre o impacto que suas parcerias comerciais causam na sociedade. Onde estão as letras “S” e “G” do ESG quando essas instituições lucram diretamente com o vício e o empobrecimento de suas próprias comunidades?

Paralelamente, o Estado não pode se omitir; uma regulação com maiores critérios de responsabilidade, rastreabilidade e governança é uma medida urgente de saúde pública e soberania econômica.

O superendividamento da população não é apenas um drama privado ou índice estatístico; é um entrave estrutural ao desenvolvimento da nação. Quando a renda do cidadão é confiscada pelos juros e pela ilusão das apostas, a economia real sangra.

Enquanto o país se prepara para torcer na Copa do Mundo, é preciso lembrar que o verdadeiro papel do futebol é a emancipação, e não a ruína do seu povo.

Impor limites éticos aos clubes e uma regulação firme às apostas é um ato urgente de responsabilidade social. Caso contrário, o Brasil descobrirá que, nessa partida, a sociedade entra perdendo por goleada.

Rose Nogueira

Professora do MBA em ESG e Impact da Trevisan Escola de Negócios, diretora Executiva da Update Business Consulting ESG e conselheira consultiva em Estratégia Global e Transformação Sustentável

Deixe um comentário